Estava nublado e a ausência do costumeiro mormaço indicava a chuva vindoura. De pé na calçada, segurando um pequeno caderno, um rapaz pegou um cigarro Caterpilla com os lábios e acendeu com o isqueiro descartável branco que logo pôs de volta no bolso. Deu uma longa tragada e notou a menina que o observava surpresa.
Em plena puberdade, Gabrielle era três anos mais velha do que seus colegas de classe, preço que pagara por uma família que custou a se estabelecer numa cidade e também por seu descuido com os estudos. Aquele era o primeiro ano de sua vida que passara usando sutiã. Os seios apareceram, tardios, elementares e pequenos no ano anterior, marcavam a farda branca atraindo a atenção masculina, rebatida com um olhar cheio de cólera.
As amigas de classe idolatravam o filho da diretora e aquilo era o que a moça sabia sobre ele, nunca o encontrara pessoalmente. Ainda que curiosa, tentava direcionar certo desdém a aquela figura mitificada pelos comentários exagerados das colegas.
Pela pouca idade dos alunos, em média 11 anos, Gabriel, o tal rapaz, virou uma referência comportamental naquele lugar. Ele não era nem um pouco careta e, suas poucas visitas, lhe renderam um certo status. Tinha estilo, cativava fácil com um senso de humor ácido e inteligência ágil. Sentia essa admiração mas, habituado, nunca usufruiu disso como outros fariam nas mesmas circunstâncias.
O vigilante fazia sua pausa e os dois eram os únicos fora das salas da escola. Ele tentou esconder o desconcerto.
- Você não me viu fumando aqui, hein.
- Só vi. - riu.
- Já estou fora da escola.
- Fumando na frente de uma aluna menor de idade, que mau exemplo.
Aquilo seria nada demais se sua mãe não fosse a gestora mais cheia de escrúpulos do bairro, de reputação invejada por vários adversários políticos, vítimas de seu rigor administrativo nas reuniões trimestrais da prefeitura. Um simples cigarro fumado pelo filho caçula na calçada de sua escola poderia custar caro.
Gabriel passou a mão com força pelos cabelos, numa inquietação infantil, sentia-se posto contra a parede. Gabrielle entendeu, atirou aquele cigarro na calçada, tomou-o pela mão e entrou pelo portão. Caminharam rapidamente em passos leves, a garota deixou o caderno dele no banco do corredor e entraram no box do banheiro feminino que estava em reforma. Uma hora antes do intervalo. Tranca girada, costas na porta de madeira recém pintada.
Ele olhou inquisidor, encontrou apenas uma respiração nervosa tomada pela adrenalina do perigo real. Alisou o rosto da menina com as cotas da mão, coagido pelo ambiente parou os dedos nos lábios. Ela mordiscou e acostou um de suas mãos na braguilha da calça dele. Convencida, virou-se e roçou eriçada. Ele abriu caminho com a mão dentro do shorts dela, que continuou chupando os dedos da outra mão enquanto era excitada. A endorfina anulou a epinefrina lenta e prazerosamente. Impuseram-se um silêncio perturbado somente pela respiração ofegante dela.
Gabrielle se dirigiu apressadamente até a secretaria, o corpo ainda trêmulo. Lá ignorou o sermão acerca do atraso e foi acompanhada pela diretora até o início da rampa que levava à sua classe. Viu Gabriel apontar para o caderno, fingindo surpresa, e se despedir da mãe antes de sair novamente pelo portão.